20/02/2026
Valor, custo ou investimento?
Respondemos a mais uma Consulta Prévia ao Mercado, desta vez para a elaboração do Projecto de reabilitação de uma Escola. Como fazemos sempre, e após articulação com todos os parceiros de projecto, apresentámos o nosso melhor preço — um valor construído de forma consciente, responsável e compatível com a complexidade técnica e a responsabilidade envolvida.
Foi posteriormente lançado o concurso público, e de memória, com um valor base que rondaria os 160.000,00 €, contemplando Arquitectura e todas as Especialidades - não concorremos. Por curiosidade, consultámos agora a acta do procedimento. Os valores apresentados pelos concorrentes são públicos.
Um dos ateliers propôs executar os projectos de Arquitectura e Especialidades por cerca de um terço do valor base. Estamos, portanto, a falar de um montante na ordem dos 50.000 € para um projecto que envolve:
- Coordenação geral de projecto
- Projecto de Arquitectura em todas as fases
- Especialidades (estruturas, redes prediais, AVAC, electricidade, segurança contra incêndios, térmica, acústica, entre outras)
- Compatibilização técnica entre disciplinas
- Cumprimento das exigências regulamentares aplicáveis a edifícios escolares
- Responsabilidade técnica e civil associada
Num equipamento escolar, o nível de exigência é elevado: segurança, acessibilidades, desempenho energético, conforto acústico, articulação com entidades licenciadoras e rigoroso cumprimento da legislação em vigor. Acresce a necessidade de compatibilização rigorosa entre especialidades e a gestão de um processo técnico complexo, com impacto directo na comunidade educativa. Não se trata de um programa simples nem de uma intervenção residual.
Perante estes números, a questão deixa de ser apenas concorrencial. Torna-se estrutural.
Nos concursos públicos, onde o preço tende a assumir um peso determinante, a pressão descendente sobre os honorários torna-se óbvia. Enquanto houver sempre alguém disposto a assumir o trabalho por valores drasticamente inferiores, o mercado ajusta-se a essa referência, independentemente da sustentabilidade real do serviço, do tempo efectivamente dedicado ou da qualidade expectável do resultado.
Quando a competição se centra quase exclusivamente no preço, o valor do trabalho técnico dilui-se. E quando isso acontece de forma recorrente, deixa de ser um caso isolado para se tornar um padrão. Este episódio não é apenas sobre um concurso específico. É um reflexo do estado da profissão. Quer o serviço seja prestado a uma entidade pública, como a uma entidade privada.
Não podemos queixar-nos do valor que nos é atribuído.
A responsabilidade é, de facto, de (quase) todos nós.