30/12/2025
Veja o vídeo completo: https://linktr.ee/Vladimirsafatle
O termo Sul Global não é resultado de uma autocompreensão, mas sim da internalização de uma perspectiva externa. Esse termo, de certa forma, apaga a história de outro conceito importante: o Terceiro Mundo. A ideia de Terceiro Mundo permitiu a sistematização da conexão entre as lutas sociais de nossos países. Além disso, descrevia uma condição não temporária, mas estrutural, ligada ao subdesenvolvimento – a impossibilidade de um país subdesenvolvido se tornar desenvolvido dentro do capitalismo global.
A crítica central contida na ideia de Terceiro Mundo é uma das mais importantes: não há espaço para nós neste mundo. Não há lugar para esses países no mundo atual. Portanto, de alguma forma, devemos usar essa condição de "não lugar" como uma força motriz transformadora. A mudança para o termo Sul Global não é apenas uma questão moral de diversificar nossos horizontes, mas uma questão social urgente: em situações de crise como a atual, a periferia do capitalismo é o futuro de todo o sistema.
Se queremos entender o que vai acontecer na Europa ou nos Estados Unidos, a primeira coisa que precisamos fazer é olhar para a Argentina, Índia, Brasil. São esses países que explicitam as contradições estruturais do Sul Global, mostrando claramente o deslocamento contínuo entre dinâmicas de modernização social e violência, entre demandas de crescimento e dinâmicas de destruição. Como Marx diria, é o processo em que as forças produtivas se transformam em forças destrutivas.
A resposta a essas crises nos países do sul global hoje é a brutalização social – uma forma de violência social que é o resultado da ideia política de que não há uma sociedade para todos. Esses países assimilaram tragicamente essa ideia. Assim, é crucial organizar a vida social a partir da circulação de um afeto político específico: a dessensibilização e a indiferença. A questão-chave é como construir um novo corpo social a partir de um profundo movimento de desvinculação.
Nossas crises – ecológica, social, econômica, política, psíquica e epistêmica – não estão estabilizadas; elas estão se tornando um sistema de governo. Isso significa que, em nosso horizonte global, nossas sociedades precisam ser concebidas como espaços de guerra civil permanente, algo muito presente em nossos países hoje. Nossos países são, de certa forma, laboratórios. Se o Sul Global se comoveu tanto com o destino de Gaza, foi porque vimos ali a constituição de um território como laboratório, cujos métodos podem ser generalizados como forma de gestão social.